Primeiro parto

Uma cesária consciente
Meu primeiro Parto ocorreu no dia 14.07.2004, onde pude vivenciar todo o trabalho de parto, de forma plena, ativa e com muita fé da minha filha Beatriz virar e encaixar. Isso porque ela foi gerada pélvica ( de bumbum para baixo) e eu queria muito o parto normal. No Brasil é comum quando um bebê está pélvico indicar um parto cesáreo, mas não desisti de tentar o normal, pois acreditava na possibilidade  dela virar antes ou durante o trabalho de parto. Na época já era Doula e já tinha ouvido estórias de bebê virar durante o trabalho de parto.

Durante a gestação tentei vários recursos para que minha filha pudesse virar desde posturas, acupuntura, moxabustão, meditação e tinha consciência de que se ela não virasse a possibilidade de um parto normal seria mais difícil e a cesárea seria indicada. Neste momento minha mente se abriu para a aceitação da cesárea caso houvesse necessidade.

Na madrugada do dia 14.07.2004,por volta das 3 da manhã comecei a sentir as tão desejadas contrações. No início lembrava cólicas intestinais, mas depois elas pegaram um ritmo sincronizado de 5 em 5 min. Estava eu em franco trabalho de parto, procurei ficar tranqüila em casa mesmo, fazendo meus exercícios, respirando e acolhendo toda a experiência. Chamei meu marido por volta das 6 da manhã e liguei para a obstetra por volta das 6:30. Fui para a Maternidade às 8:30 onde as contrações estavam mais intensas. Ao chegar na maternidade já estava de 6 para 7 de dilatação, mas minha filha continuava pélvica. Fizemos uma ultrasom para confirmar e também havia circular de cordão. Trabalho de parto bom, colo fino, mas não quisemos arriscar num parto pélvico. Foi uma decisão tomada juntamente com a obstetra, minha querida amiga Dra. Lívia Martins, considerada uma das pioneiras do movimento de Humanização do Parto no Brasil.

Presença do pai
 Foi uma escolha consciente e isso fez toda a diferença no meu processo de aceitação da cesárea, pois sabíamos que era a opção mais segura para aquele contexto. Em nenhum momento senti que o tempo que investi para que ela virasse foi em vão. Faz muita diferença ir para a cesárea depois de ter vivenciado o trabalho de parto. Reconhecer que eu fui capaz de receber as contrações, que meu colo se abriu para a experiência, que as contrações significaram amor e abraços na minha filha, tudo isso fez total diferença no processo de vinculação e na estória dela.

O parto foi feito num ambiente em que houve muito respeito pela equipe, fui andando para o centro cirúrgico, pois não estava doente ( por mais que as enfermeiras queriam me colocar numa cadeira de rodas), meu marido entrou comigo, não me amarraram, fiquei super tranquila, tudo que ia acontecendo a equipe procurava me comunicar, logo que ela nasceu o pai a segurou e a trouxeram para meu colo. Ficamos nos reconhecendo e a amamentação foi incentivada ainda dentro do centro cirúrgico, mas logo após comecei a ter ânsia de vômito e a me sentir muito mal...

O pós parto não foi fácil. Muitas dores, nem se compara com as dores do trabalho de parto, a dor da cesárea me tirou forças enquanto as dores do trabalho de parto me davam poder e vontade de continuar porque elas tinham um propósito que era trazer minha filha à vida. Tive trauma na uretra porque não conseguia urinar, por causa da anestesia, me colocaram uma sonda que não surtiu efeito, depois outra, daí mais dores... Foi difícil as primeiras semanas, fiquei com uma sensação de que estava precisando de ser cuidada,  mas precisava estar bem para cuidar e amamentar a minha filha. Percebia uma certa melancolia, uma leve tristeza que se manifestava aos finais da tarde, sabia que era o baby blues e que era um sentimento comum de manifestar após o parto ( principalmente após cesárea). O bom de tudo isso é que nada é permanente e estes sintomas foram passando e eu melhorando. A amamentação fluiu bem e com o tempo fui tomando posse do meu novo papel de ser mãe.

A Cesariana ou parto cesáreo deve ser realizado somente em situações de risco para mãe ou para o bebê.

 Sua taxa não deveria ultrapassar, conforme a OMS recomenda, 15 % do número total de partos. Sabemos que na prática no Brasil este número chega a mais de 80% em algumas maternidades.

A Cesárea Consciente
A Cesariana deveria ser indicada nas seguintes situações:
  • Prolapso de Cordão: situação rara, em que o cordão sai antes da saída do feto, o fluxo de sangue é comprimido, ocasionando falta de ar para o feto.
  • Descolamento prematuro da placenta.
  • Placenta prévia: quando a placenta fica aderida à abertura interna do colo do útero e assim obstrui completamente a passagem do feto.
  • Sofrimento Fetal: através do monitoramento do BCF (batimento cardíaco fetal), constata-se que o feto não está em condições adequadas para sua sobrevivência.
  • Doenças maternas: Eclâmpsia ou Síndrome Hellp, Herpes genital ( quando há lesão ativa),
  • HIV: a transmissão para o feto fica diminuída quando se faz parto cesáreo.
  • Cirurgias ginecológicas prévia: extração de miomas uterinos.
  • Cesárea anterior se houver gestação gemelar .
  • Apresentação anômalas: feto córmico (transverso), feto pélvico ( se for 2ª gestação após 1 parto normal pode tentar via vaginal) e mal formação fetal.
Apenas nestas situações acima é que a cesariana deveria ser indicada, mas sabemos que  os bebês são impedidos de entrarem neste mundo no seu tempo e ritmo, pois muitas vezes as mulheres são orientadas a marcar previamente a chegada do bebê sem ao menos esperar pela data provável ou sinal de início de trabalho de parto,  por falta de informação e medo as mulheres optam por esta via de nascimento.

Considerações para não fazer cesárea eletiva (com hora marcada)

Quando marca o parto sem esperar o bebê dar o sinal, este não recebe nenhuma informação psicofísica sobre o nascimento, a mãe não entrou em trabalho de parto, não houve mensagem química ou emocional. O bebê é recebido de forma abrupta sem nenhuma preparação. Fisicamente durante o trabalho de parto o bebê sente as contrações uterinas como estímulos táteis, como se estivesse recebendo abraços e mãe e bebê estão sob efeito de um mar de hormônios considerados do amor que aumentam a sensibilidade emocional facilitando a formação de laços afetivos.

Os riscos são maiores na cesárea como infecções e hemorragias, aumentam as probabilidades de certos problemas em gravidez posteriores, incluindo anormalidades na placenta que podem conduzir a um sangramento severo durante o parto.

A separação do bebê da sua mãe pode gerar um sentimento de medo e desamparo no recém nascido, dificultando suas futuras relações com os pais e com o mundo.

Estudos em relação aos bebês que não vivenciaram o trabalho de parto mostram a incidência significativamente mais elevada de distúrbios respiratórios, alergias e outras doenças no primeiro ano de vida.

O índice de desmame precoce em bebês que nascem de cesárea é maior. Por falta de estímulos hormonais a descida do leite pode ser demorada, o que gera muita angústia.

As mulheres tendem a ter maiores dificuldades em assumir seu papel de mãe, pois sentem debilitadas precisando de maior apoio. Maior incidência de depressão pós parto.

Caso a cesárea seja necessárea, como a queremos?
  • Primeiramente a mulher tem que ter certeza de que o procedimento é realmente necessário e aceitá-lo;
  • De preferência vivenciar uma parte do trabalho de parto;
  • Sem sedação anterior ao parto;
  • Ter presença de acompanhante (companheiro se possível) durante o trabalho de parto e no centro cirúrgico;
  • Profissionais comunicarem sobre cada procedimento;
  • Calma, respeito, sem barulho ou conversas paralelas, fora do contexto;
  • Braços livres;
  • Se possível sem manobras de Kristeller;
  • O bebê ser levado à mãe assim que ele nascer, contato pele a pele;
  • Exames do lado da mãe;
  • Amamentação logo após o parto, ainda no centro cirúrgico;
  • Alojamento conjunto, mãe e bebê no quarto.

Um comentário: